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PREMATURO...ATÉ QUANDO?

O que implica ter um filho prematuro de 24 semanas? Respostas e interrogações de mãe e terapeuta...

PREMATURO...ATÉ QUANDO?

O que implica ter um filho prematuro de 24 semanas? Respostas e interrogações de mãe e terapeuta...

O dia em que nos conhecemos

 

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Foi em Abril. Ou terá sido antes? Quando será legítimo dizer que mãe e filho se conhecem? Se vieste de dentro de mim, que mais profundo conhecimento pode haver? Se conheceste o meu corpo do avesso, e te construíste das minhas células, do meu sangue, se dançaste no meu movimento e te embalaste na minha voz... Que maior conhecimento poderá existir? O que poderá ser maior e melhor que sermos um só? O que poderia trazer o lado de fora para nós? Ocorriam-me algumas coisas. Todas sensoriais: ver-te (os teus olhos), cheirar-te, tocar-te, beijar-te, ouvir-te. Tudo isso me parecia uma troca justa para deixar de te ter dentro de mim, na maravilhosa experiência que era a gravidez. Mas quando saíste de mim, perdi-te. Foi esta a vivência. De profunda perda. De profunda dor. Porque nada do que eu aceitei como troca me foi dado. Das tuas 24 semanas sobrou apenas o vazio no meu corpo. A maca levou-me para o último quarto do corredor. Passei pelos outros quartos com as mães e os seus bebés. No meu havia um berço vazio. Como eu.... Quando no dia seguinte me levantei e me levaram para te conhecer, havia no meu lugar uma incubadora. Uma caixa e muitas máquinas e fios que faziam o trabalho que o meu corpo não conseguiu fazer (a culpa em cada minuto daqueles dias). Quando te conheci pude apenas espreitar entre as gotas do vapor de água que a temperatura daquela caixa libertava. Não vi os teus olhos, estavam fechados. Não te peguei, não me deixaram. Não te cheirei. Não te dei beijos. Não te ouvi, tinhas um ventilador que te tirava a voz. Fiquei de pé em frente aquela incubadora, a tentar reconhecer-te, a apresentar-me. Não te reconheci. Não me reconheceste de certeza. A linguagem dos nossos corpos, assim distantes, ficou muda. Como dois estranhos. Mas se tu eras meu filho e eu a tua mãe... Era aquele o dia em que nos conhecíamos? Era abril... não me recordo do tempo lá fora, nem das horas. Mas foi o dia em que me apresentei na esperança que a memória existisse já em ti. Falei-te pela janela da incubadora, toquei-te com um dedo. “Olá Pedro. Sou a mãe... estou à tua espera.” E assim esperei...Todos os dias. Desde o dia em que nos (re)conhecemos, até ao dia em que nos voltamos a abraçar.

Carla Almeida (carlacintraoalmeida@gmail.com)

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